"Um Beijo no Santo"


Por Léo Borba-jornalista

Sentada à mesa da cozinha, assiste ao noticiário. Pela Janela, entra a claridade e o calor da manhã.

“A Polícia invade o morro e prende quadrilha de traficantes. No tiroteio, um policial ficou ferido e três traficantes foram mortos. Veja a reportagem...”

Toma um gole de chá, de olho na matéria. “Passava das Onze horas da noite, quando a polícia entrou por esta rua. Alguns traficantes estavam um pouco mais acima e reagiram...”

A repórter intercalava frases e pausas, dando uma pitada de suspense. Algumas imagens cedidas pela própria polícia ilustravam a matéria. Imagens que ela conhecia. Mais do que isto; vivenciara. - Hoje você fica na retaguarda. – Determinou o Comandante, um sargento com dezenas de operações no currículo. Ela concordou com um aceno de cabeça e saiu da sala. No vestiário, abriu a porta do armário, uma pistola 9mm e conferiu a munição. Olhou a imagem colada na porta. “Fecha meu corpo, Santo Guerreiro”, pediu em silêncio, ao beijar São Jorge. Fechou a porta do armário e colocou a arma na cintura. -Vamos Lá!!! – A voz de comando, vinda pelo sistema de som, ecoou no vestiário. Ela endurece o olhar e sai.

“Alguns moradores (que não quiseram se identificar) relataram o medo que sentiram com a intensidade do tiroteio, prosseguia a repórter.

“Sim. Foi grande!”, concordou ela, enquanto servia da garrafa térmica mais um pouco de chá. Precisava baixar a adrenalina. Esquecer o brilho de fogo nos olhos do rapaz que saltou o muro, de arma em punho.

Num relance, ela percebeu o vulto e escondeu-se atrás da viatura, com a arma em punho. O companheiro não teve a mesma sorte e levou um tiro e caiu. O rapaz olhou em volta, viu que o policial atingido tentava se arrastar para a viatura. Levantou o fuzil e, com os olhos brilhando de raiva, fez pontaria. Atrás da viatura, ela levantou a arma e atirou. O rapaz desabou no chão, sem dar um gemido. Em seguida, passou por cima do corpo do rapaz e levantou o companheiro ferido, levando-o para a viatura.

“O corpo do terceiro traficante morto pela polícia foi encontrado aqui, no pé do morro. Era um rapaz de 16 anos com as iniciais...”

Ela terminou de tomar o chá e, antes da reportagem acabar, foi para o quarto. Ao deitar, uma olhada no porta-retratos no criado mudo, ao lado da cama. Nele, a foto com o sorriso do filho, também com 16 anos. No peito, a correntinha com a imagem de São Jorge. –Obrigada, meu Santo! – disse, em agradecimento. Depois do beijo na medalhinha, deu início à “noite de sono” no calor da manhã.

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