Crônicas

do jornalista

Léo Borba

O Quadro no Quiosque

 Por: Léo Borba- Jornalista

 

Fechou o quiosque e sentou no meio fio do calçadão com os pés na areia. Deixou-se ficar Algumas nuvens surgiram na linha do horizonte. De lá, chegavam as ondas que, em branca espuma se espraiavam antes de retornar, deixando apenas lembranças...

- Você ouviu as regras – A voz do pai era serena, experiente.

– Se cumprir o que assinou, ninguém te perturba. Então, é só trabalhar! – disse o pescador, ao terminar o conserto da rede e se dirigir ao barracão. Um casal de garças espreita o movimento das marolas.

Ele olhou para a embarcação na areia e achou que deveria ser recolhida.

-De tardezinha ela vai pro galpão – disse o homem, como se adivinhasse o pensamento do filho. Tinha nas mãos um envelope pardo e uma moldura.

-Aqui está uma parte do dinheiro você ganhou na pesca deste ano. Dá pra comprar as coisas do quiosque e pagar uma parte do alvará.

-Entregou o envelope ao rapaz e, em seguida, a moldura.

-Este quadro você pendura na parede do teu quiosque e, antes de abrir pro movimento, leia com atenção.

- Obrigado, pai – disse o rapaz ao dar um beijo no rosto do homem. Montou na bicicleta e saiu. Na calmaria da tarde, pedalou pela orla, com o envelope e o quadro na mochila. Nos olhos, o sol de primavera mesclado com o brilho da esperança numa boa temporada de verão...

“Mais um dia de bom movimento”, avaliou, observando a maré que subia. Sentiu no rosto o aguaceiro de verão. Observou algumas famílias ir embora.

Ele ficou. Sentado no meio-fio do calçadão, esperava o cansaço se diluir nas gotas da chuva de verão. A chuva parou e deixou o céu com uma cor acinzentada. Levantou-se e olhou para a orla. “Amanhã, mais um dia de sol e movimento”.

Caminhou em direção a bicicleta e, antes de ir embora, olhou para o quiosque. Lembrou do quadro e do que estava escrito nele: “Quem chega, traz um sonho. Alimente-o. Quem parte, leva lembranças. Faça com que sejam boas. Assim como as ondas do mar, muitos retornam à estas areias.”

Rio da Lua

Por Léo Borba, Jornalista.

Já passava do meio da tarde, quando chegou à beira do rio. A água clara deslizava serena, por entre as margens cobertas de relva. Na limpidez, refletia o céu sem nuvens de um dia de primavera.


Tira das costas a mochila e o saco da barraca e coloca-os no chão. Aliviado do peso, volta-se para olhar a pequena colina por onde descera. Mais à direita, um pequeno capão de mato. Vai até ele e retorna com uma braçada de gravetos e pedaços de galhos secos. Atrás de si fica o alarido das tirivas. Para de caminhar e observa o pequeno veado saciando a sede na outra margem.
O animal vai embora e ele retoma a caminhada. Ao lado da mochila, larga o feixe de lenha. “Um inverno de pouco frio”, avalia ao observar a grama verde que toma o lugar do capim crestado pelas geadas. Abre o saco e retira as armações e a lona da barraca. Um grito de quero-quero ecoa pela coxilha.


Ele volta-se para a colina e vê a silhueta esguia. Admira a imagem escurecida pelo sol às costas, que desce com a leveza de quem conhece o caminho.
- Os búfalos me fizeram pular a taipa- Disse ela, ao largar a mochila e tirar o chapéu. –Desculpe o atraso...
- Não há atraso- atalhou ele, com um meio sorriso.
–Obrigado, devolve ela ao balançar a cabeça para liberar os cabelos, cortados na altura dos ombros. Ele alinha as hastes da barraca e as extremidades no chão.
-Quer ajuda?
- Sim. Podes pegar a janta? – Perguntou com um olhar em direção ao rio. –As varas e as iscas estão na mochila.


Ela pegou uma das varas e um pequeno pote de plástico e foi em direção ao rio. Ao passar por ele, dá um sorriso e pergunta: - Você sabe armar uma barraca?
Ele abre um sorriso, joga a lona sobre a armação. – E você, sabe pescar? – Ela também não responde e segue em direção ao rio. Mais a frente, o pequeno veado segue com a mãe em direção ao pouso. O sol poente tinge a paisagem de um acobreado luminescente.

Terminada a montagem da barraca, prepara a lenha da pequena fogueira. Com uma faca de campo, retira a casca de dois galhos finos que servirão de espetos, enquanto observa a mulher, sentada na beira do rio, puxar uma tilápia e colocar ao lado de duas outras que saltitam na grama.
O manto da noite começa a cobrir o campo da Coxilha. Surgem as primeiras estrelas que lhe trazem lembranças...

A água do chuveiro caia com abundância. Enxaguava o corpo ainda tenso; leva para o ralo a espuma, o suor e o cansaço. Quando fechou o registro, ouviu mais forte o som das arquibancadas. Na saída do ginásio, o movimento era intenso. Passou por entre os gritos de “campeão”, recebeu cumprimentos, tapinha nas costas.


-Esqueceu a medalha no vestiário?”


Olhou em direção à pergunta e viu o rosto suave que emoldurava um sorriso sapeca e dois olhos curiosos. Pegou do bolso a medalha, colocou no pescoço e foi em direção a ela.
-Parabéns, campeão!- Saudou ela com os braços abertos.
- Obrigado, minha campeã- devolveu ele, com um sorriso encabulado. Os braços dele envolveram-na pela cintura e ele sentiu o calor dos braços dela em volta do pescoço.


Em meio aos olhares, entregaram-se ao abraço. –Mas eu não vi a sua medalha – cochichou ele. –Guardei pra te mostrar em algum lugar, sem ninguém por perto- sussurrou, com os lábios bem próximos ao ouvido dele. Nem perceberam o espocar do flash de um fotógrafo do jornal local.
- Vamos lá! O ônibus chegou! – O grito de um dos companheiros de equipe interrompeu o abraço. Embarcaram no ônibus e seguiram para o jantar, antes da comemoração.


“Escola Pública conquista o Ouro no voleibol masculino e feminino”.
A manhã já estava alta quando ele leu a manchete do jornal, ilustrada com a foto do abraço dos dois. Guardou o jornal para ler depois. Decidiu que as lembranças daqueles jogos estudantis seriam guardadas com muito carinho...

-Os peixes estão limpos! – anunciou ela, interrompendo os pensamentos dele.
-Ótimo! Daqui a pouco acendo o fogo. – disse, indo em direção à barraca. Voltou usando apenas uma sunga de banho e com uma toalha na mão. –Antes, vou dar um mergulho.
-Sim senhor! – disse ela, levantando-se com os peixes nas mãos; no rosto o sorriso sapeca e o olhar brilhante. Mesmo sem se tocar, sentiram uma eletricidade fluir pelos poros. Um pequeno sorriso começou a se formar nos lábios dele. Ela aproxima o rosto, os lábios entreabertos.
-Bem Te Vi! – O pássaro, pousado no alto da barraca, quebra o encanto. Os dois riem. Ele coloca a toalha na grama e mergulha no rio.


Ainda rindo, ela vai em direção à barraca com os peixes nas mãos.
“Com tantos pássaros por aqui, tinha que ser este a aparecer”? Perguntou ela a si mesmo.
Sentada na frente da barraca, observa a silhueta do homem no rio. “Simplesmente, não envelhece”, pensa ela admirada com o vigor das braçadas. No outro lado da margem, por cima de um pinheiro, surge a lua. No auge do plenilúnio, ilumina tudo ao redor.


“Qual é mesmo o nome da música”?- se pergunta encantada com a noite dourada...

... –Moon River. – Diz ele, após um gole de cerveja.
-É linda! – Exclama ela, olhando a noite estrelada. Ocupavam uma das mesas na varanda do bar e danceteria, no alto do morro. De lá, observavam a cidade que se preparava para dormir. Uma cidade que tentava manter o glamour obtido no auge da indústria madeireira. Mas restavam poucas serrarias em funcionamento.

-Esta gravação é com a Judy Garland- Explicou ele, olhando nos olhos dela. - Foi gravada há uns dez anos.


“Wherever You’re goin, I’m goin your way” (“onde quer que você vá, eu seguirei seu caminho”)
“Moon River, and me” (“Rio da lua, e eu”)
Aos últimos acordes, de mãos dadas sobre a mesa, tentaram dizer alguma coisa. Mas ficaram em silêncio. Então, ela sentiu uma lágrima descer lentamente pelo rosto. Segurou mais forte a mão dele e deixou que escorresse até pousar no lábio, com gosto de saudade...

Um borrifo no rosto a fez interromper as lembranças.


–A temperatura da água está boa- disse ele, enxugando-se.
–Se quiser, experimente enquanto eu acendo o fogo e asso os peixes.
- Boa ideia, disse ela; levantou-se e entrou na barraca. Ele terminou de se enxugar, vestiu uma bermuda e uma camisa pólo. Acendeu os gravetos e colocou umas grimpas colhidas ao pé da araucária. Olhou o pequeno filete de fumaça se elevar pela noite estrelada.
-Não queime o jantar! – Alertou ela na saída da barraca. Com uma toalha na mão, caminhou até o rio, sentindo o frescor da grama nos pés descalços. Ele concordou com a cabeça e ficou olhando-a, usando um maiô que realçava o corpo longilíneo que aprendera a admirar, sentado na arquibancada do ginásio de esportes.


Aproveitou as labaredas e sapecou as varas raspadas para assar os peixes. Depois, abriu uma sacola de mantimentos, pegou o sal e alguns temperos. –Esta receita do meu avô é infalível. – Falou pra si mesmo. Estaqueou dois pares de forquilhas, tramou algumas varas em forma de grelha e colocou os espetos em cima, sobre o fogo de chão. Algumas gotas do tempero caíram nas brasas e fez o aroma do assado subir pela fumaça da pequena fogueira.
Viu, mais a esquerda, dois pequenos toros de um tronco, quase ocultos pela grama alta. Virou os espetos e foi buscá-los.


Estendeu uma toalha no chão e colocou em cima alguns pães, dois pratos e dois talheres. Voltou a virar o peixe, correu até a barraca e pegou uma bolsa térmica. De dentro dela, retirou uma garrafa de vinho e dois cálices.
Tiiimmm!!!- Respondeu o cristal ao receber uma leve batida da unha. Voltou ao peixe. “Quase pronto”, observou, levantando os espetos. Pegou os dois toros, colocou-os ao lado da toalha e sentou em um deles.


- O Jantar está pronto? – A pergunta veio do rio. Virou-se e viu o rosto dela, banhado de lua.
- Quase. –Respondeu, apontando para os espetos. Ela acenou de volta e continuou a nadar.
Foi até o braseiro. As tilápias estavam douradas. Regou-as com uma pequena dose do tempero e afastou os espetos do fogo. –Sim, quase prontas! – falou sozinho.
Quase. Um advérbio que beira um acontecimento. Algo como, “Por um Triz que não”, “Muito próximo de”.
Voltou a sentar e admirou a lua cheia, já mais no alto. Sob o céu estrelado, sentiu chegar uma nuvem de lembranças, que começou com o encontro no bar-clube e a lágrima no rosto dela...

-Tenho que ir pro exército – disse ele, com a voz trêmula, sem olhar nos olhos dela.
O garçom trouxe a cerveja e o refrigerante; percebeu o silêncio que os envolvia e saiu sem dizer nada.
-Não vai prá faculdade? –Perguntou ela, sem entender.


Isso vai ter que esperar- respondeu contendo a frustração. – Tudo que sei é que amanhã me apresento no quartel. Depois de amanhã embarco pra Brasília, vou servir lá. – Explicou, segurando as mãos dela.


E segurou, também, o que gostaria de ter dito...

Assim como o rio, cada um seguiu seu curso. Ele, doutor em Biologia, foi trabalhar na SEMA (Secretaria Especial do meio Ambiente), precursora do IBAMA. Designado para trabalhar numa das primeiras Zonas Protegidas da Floresta Amazônica, onde ganhou notoriedade.
E várias transferências para todas as regiões do País.
Com a vida itinerante, manteve-se solteiro.


Ela, formada em medicina veterinária, começou a carreira no Exército, cuidando dos cavalos dos dragões da Independência, em Brasília. No fim do Governo Militar, já casada com um Capitão da Cavalaria, passou a viver a rotina militar de transferências de domicílio. Sofreu com a morte do marido, se emocionou com a ascensão do filho ao posto de Capitão e decidiu dar um novo rumo à vida. Especializou-se em Veterinária Ambiental e passou a percorrer as reservas ambientais para a implantação de programas de fiscalização e preservação de animais silvestres.

Um dia, viram-se aposentados e curiosos em saber como terminaria aquela conversa interrompida na mesa de um bar, numa noite de lua cheia.


Descobriram-se nas redes sociais.
Voltaram à mesma cidade e a viram diferente. Nem o bar existia.
Decidiram pelo encontro na Coxilha.
-Humm!!! Este cheirinho promete. – Disse ela ao sair da água. Enrolou-se na toalha, olhou a “mesa” posta na relva e caminhou em direção à barraca. –Vou me enxugar. - avisou.
Ele concordou com um sorriso.
No cabo da faca de campo acionou o saca-rolha e deixou junto à garrafa. Tirou os espetos do fogo e serviu um peixe em cada prato. Os que restaram, ficaram no espeto e colocados no alto das brasas.
-Plot!
Ao som da rolha tirada da garrafa, ela deixou a barraca.
-Acha que estou apropriada para tão elegante jantar? – perguntou, com um giro de passarela e esvoaçando os cabelos soltos e úmidos. Vestia um roupão de mangas curtas que cobria o corpo até a altura dos joelhos.
Hipnotizado pelo brilho da seda, convidou-a a sentar.
-espero que o jantar esteja à altura de tão esperado momento – respondeu ele, sem tirar os olhos dela.
Partiu um dos pães e colocou um pedaço em cada prato. Pegou a garrafa, serviu a taça que estava na mão dela e esperou.
- Hum!! Que belo buquê! – exclamou ela ao sentir o aroma do Sauvignon Blanc.
Ele colocou um pouco na própria taça e estendeu o braço em direção a ela. – Que este reencontro nos permita terminar uma conversa para começar uma história. Disse ele com a voz levemente embargada.
-Tim!! Tim!! – responderam as taças.
Cada um tomou um gole e, iluminados pela noite, iniciaram o jantar.

No outro lado do rio, minúsculos pontos faiscantes voavam em forma de nuvem.
- Um belíssimo jantar! – Falou ela, com o rosto bem próximo ao dele.
-A companhia é muito melhor. – sussurrou ele. Os lábios quase se tocando.
- Vou lavar a louça. – avisou, com um sorriso.
Com a respiração suspensa, ele a viu dobrar o corpo sobre a toalha e pegar os pratos e talheres. A chama da pequena fogueira iluminou o colo, onde pendia uma corrente dourada; o decote do roupão se abriu um pouco mais e mostrou parte dos seios.
- Não demoro. - Disse ela, ao caminhar em direção ao rio.

“O jeito moleque de sempre”, pensou, ainda sentado a observá-la caminhando descalça pela relva úmida de orvalho e se agachar à beira d’água. Olhou o firmamento e viu a grande esfera dourada, no ápice do plenilúnio.
Dobrou a toalha, levou-a barraca e trouxe uma manta de retalhos. Estendeu-a no chão e aproximou os toros de madeira. Lavou as taças com a água do cantil e conferiu a garrafa de vinho. “Está pela metade”, concluiu. Sentou no banco improvisado e esperou.
-Vou guardar os pratos. – Disse ela ao voltar. Entrou na barra e, em seguida, voltou. Sentou de frente pra ele. Os joelhos se tocaram.
A nuvem brilhante atravessou o rio, num bailado a procura de uma música.
“Wherever You’re goin, I’m goin your way”...
Os primeiros acordes da canção saíram pela abertura da barraca e ganharam a liberdade da coxilha.
-A música!!! – Exclamou ele, segurando as mãos dela.
-Moon River – Disse ela. – Com Judy Garland.
Levantaram-se e foram para o centro da manta de retalhos. Enlaçou-a pela cintura e sentiu os braços dela no pescoço. Colaram os rostos e dançaram embalados pela suavidade da melodia.
-Quer namorar comigo?- Perguntou, com uma ponta de ansiedade na voz.
-Sim! Quero! – Respondeu no ouvido dele.
“Moon River, and me”!!!


A música terminou, mas continuaram abraçados, dançando ao sabor do beijo, à luz da lua, na beira do rio.
-Tenho algo pra te mostrar – ela avisou ao recuperar o fôlego. Deu um passo para trás, abriu um sorriso e o roupão. Entre os seios, uma medalha dourada na ponta da corrente.
-Minha campeã! – Exclamou ele. Tirou a camisa e a medalha guardada no bolso da bermuda.
Deitaram no meio da manta de retalhos, despidos das roupas e dos anos.
Na beira do rio que desce pela coxilha, se amaram; iluminados e envoltos pela nuvem de vagalumes, vindas da outra margem.

- Noossa!!! – Suspirou a funcionária ao terminar de ler o relato escrito no caderno, aberto em cima da mesa do quarto.


Esticou o lençol da cama, cobriu com a colcha de retalhos, ajeitou os travesseiros e abriu a janela.

Lá fora, sentado numa espreguiçadeira, o homem sentia o aroma das folhas e a tepidez do sol da manhã, cujos raios faziam brilhar os cabelos ralos e alvos.
“Chegou aqui há uns dois anos”, lembrou a funcionária, ao conferir a arrumação do quarto.
-Apenas o suficiente, antes da viagem. - explicara ele ao chegar. Trazia uma mochila com algumas roupas, uma faca de campo, duas taças de cristal e uma garrafa de vinho vazia.


A casa de repouso ganhara um novo morador.
Antes de fechar a porta do quarto, a funcionária dá mais uma olhada pela janela.
No jardim, o homem sentado na espreguiçadeira continua a tomar sol e a admirar a lua cheia que se deixou ficar um pouco mais naquela manhã de dezembro.

Arquivo/Crônicas

21.10.2018

25.09.2018

25.09.2018

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"Sorriso de Batom"

Por Léo Borba, Jornalista.

No frio da Madrugada, veste o jaleco por cima da blusa de lã. Esconde os cabelos dentro da touca, retoca o batom e se posta atrás dos balcões que demarcam a barra. Olha ao redor e vê as outras já prontas, a espera do amanhecer. “Mais um dia de feira”, pensa ela... e sorri. Filha de produtores rurais deixou os pais, os irmãos, o plantio e a colheita para cursar a universidade. Faculdade de Sociologia. Divide o apartamento e as despesas com outras colegas. Café da manhã e almoço no campus. A janta ela mesmo faz, com o que compra na feira. Um dia, um dos feirantes precisou de alguém para ajudar. Pediu a vaga; precisava aumentar o dinheiro que o pai mandava. Desde então, chega por volta das quatro horas da manhã e sai perto do meio-dia. Detrás do balcão, ela observa os grupos de pessoas que chegam ao centro para trabalhar. De uma das barracas vem o cheiro do óleo e da fritura dos pastéis; mistura-se aos dos queijos, dos salames, dos charques e com o odor das frutas e verduras... O cheiro da feira mitigava a saudade de casa. Antes de começar o movimento, abre uma pasta e retira um caderno. “A tarde tem reunião com a orientadora”, lembra. O dia amanhece; chegam os primeiros compradores. Guarda o caderno e começa o atendimento. No rosto, o sorriso de batom. Por entre as barracas, transitam os clientes; na verdade, fregueses. Olham os produtos, perguntam os preços. Falam de governos, reclamam, riem. “A feira continua um centro de comunicação popular”, conclui ela. E pensa no TCC- O Trabalho de Conclusão de Curso. Uma monografia sobre a relação dos agricultores familiares com os centros urbanos e com o título, ainda provisório, As itinerantes Cidades de Lona. O calor do sol aumenta; já é meio-dia. Despe-se do jaleco e da touca. Pega a pasta e sai detrás do balcão. Vai até a barraca do pastel e decide não almoçar no campus. Enquanto come, olha para a feira. Sente que, hoje, é menos um dia de trabalho. Uma saudade antecipada das madrugadas da feira. Terminado o TCC, a colação de grau. Um último gole do caldo de cana e caminha em direção ao terminal urbano. Segue com a pasta na mão, um sorriso de batom; pensando na volta pra casa com o diploma na mão.

"​Pela Portaria"

Por Léo Borba, Jornalista.

No balanço do ônibus, segurava-se para manter o equilíbrio. Não era o único em pé. Linha centro-bairro, das dezoito e vinte e cinco.

 

Sentia no rosto o ar frio que entrava pela janela. Outros passageiros manuseavam o celular. Com uma das mãos, encobriu o bocejo. Uma parada no ponto para desembarque do casal de universitários. Aproveita um dos bancos e se acomoda junto à janela.

 

Coloca a mochila no colo e observa o trânsito lento. Na calçada, todos caminham embaixo das marquises. Na noite de setembro deste inverno bipolar, a chuva fina chegou sem aviso. Alguns pingos entram pela janela. Recostado no banco, sente o corpo relaxar.

 

“A mulher do “trezentos e quatro” não pegou a correspondência”. No balanço do ônibus, algumas lembranças do trabalho. Porteiro do prédio de apartamentos. Emprego de vários anos, encontrado ao acaso, aceito na necessidade. A gravidez dela e um casamento rápido.

 

Na gaveta, guardou cadernos, livros e apostilas. A faculdade de Pedagogia já estava no fim. Mas acabou trocada pelo aprendizado de ser marido; de ser pai. Pela portaria passavam moradores, visitantes, cobradores. Passaram os anos.

 

A chuva fina parou. Mas o ônibus não. Segue lotado. Já no bairro, desembarcam os passageiros de todo dia; cada um com sua história, com seu cansaço. Então, desce com a mochila na mão. A volta, o ônibus segue e ele atravessa a rua.

 

Em casa, toma um banho e esquenta a janta. A esposa leciona até as dez e meia; volta com o filho, calouro do Curso de Pedagogia. Após lavar a louça, decide não ligar a TV. De fora vem o ronco de mais um ônibus. Sozinho, abre a gaveta e tira um livro. Abre na página marcada e retoma a leitura. Psicologia Pedagógica, Lev Vygotsky. Um dos livros dos tempos da faculdade.

 

“Amanhã bem cedo preciso entregar a correspondência da mulher do “trezentos e quatro”, decide, antes de dormir. Amanhã, a vida volta a passar pela portaria.