"O Cheiro e o Morro"


Por Léo Borba-jornalista

Se no caminho do poeta tinha uma pedra, no meu tinha um cheiro. Chegou-me as narinas, em pleno calçadão da Felipe Schmidt. Não era a fragrância daqueles perfumes famosos. Apenas um prosaico cheiro. Olhei em volta e vi a rua, há anos exclusiva para pedestres. Movimentada, claro.

É assim de segunda a sexta, em todas as estações. Sazonal é o cheiro que sinto, em meio a tantos outros odores... De onde vem este cheiro? Procuro, em meio aos que passam pelos compradores de ouro, doleiros, anunciantes de barbearias e de restaurantes...

Em meio a esta tribo de ambulantes, vejo duas índias; Guarani, da Reserva do Morro dos Cavalos; sentadas à sobra da marquise com alguns cestos trançados e vários maços do cheiro que senti. Elas vendiam Marcela. A índia sorriu ao receber o dinheiro. Com o maço dourado na mão, voltei sobre os passos que vim. Por entre os casarios históricos de Florianópolis, o cheiro me fez andar pelos caminhos da lageana juventude e das subidas ao Morro Grande (Morro da Cruz, como queiram) para catar marcela.

Uma erva usada no combate a Azia, cálculo biliar, cólicas intestinais e uma série de outras doenças. Com ela, curei várias dores de barriga. Muito usada, também, para encher os travesseiros. No contar dos mais antigos, no caminho do calvário por onde Cristo passou com a cruz, havia muita marcela. Daí a crença de que, pára aumentar suas propriedades curativas, deveria ser colhida na Sexta-Feira Santa, antes do nascer do sol. Ainda lembro das caminhadas morro acima.

Pelo caminho, mais do que o do poeta, muitas pedras e dezenas de outros madrugadores seguindo antigos carreiros; extraviando-se por entre as vassouras, catando aquelas flores amarelas e úmidas de sereno. Colhida a “braçada” bem cheia, esperávamos o nascer do sol e, lá de cima, admirávamos a cidade que começava a acordar. Já próximo a Praça Quinze, prestei atenção ao movimento da Ilha. Atravessei a rua e segui meu caminho. Nas mãos, o maço de marcelas. Na lembrança, o cheiro lageano da Páscoa.

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