"Nota de Vinte"


Foto: Léo Borba

Por: Léo Borba, jornalista

De mãos dadas, o casal caminhava pela calçada central da avenida. Um corredor de acesso a ao terminal urbano central. Ele, com cerca de 65 anos, cabelos brancos. Ela, um pouco menos, os cabelos da cor acobreada do sol no final de tarde. De mãos dadas, andavam devagar. Por eles, passavam os que ainda têm pressa.

De mais adiante, quase em frente ao mercado público, vinha a música. Guitarras e bateria encobriam os sons de motores e buzinas. O casal identifica a melodia e, de mãos dadas, seguem pela trilha das lembranças, desviando do carrinho da cocada e das bugigangas dos camelôs expostas no chão. Seguiam em direção à música, com a certeza de encontrar os Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos, The Fevers, Credence, Johnny Rivers; cada um dentro de um vinil, reunidos na garagem de alguém, ao melhor estilo “Festa Americana”. Os rapazes levavam a “bebida” e as meninas o refrigerante.

A mistura de tudo isto só terminava quando os donos da casa queriam dormir. “Cortado o barato”, cada um pra sua casa. Com eles, voltavam os discos, e o sabor do Cuba Libre; os passos de rock e o “rosto colado”. Nas ruas, ainda seguras, caminhavam pela noite, iluminados de juventude. Alguns, de mãos dadas. Outros, abraçados... Abraçado estava o casal na calçada da avenida; parado em frente ao conjunto, que tocava Johnny Rivers.

Nenhum dos dois percebeu os jovens que faziam parte da “platéia” com smartphone na mão. Ao final de Do You Wanna Dance, o homem de cabelos brancos depositou uma nota de vinte na caixinha e um beijo delicado nos lábios dela. E, mãos dadas, seguiram pela calçada, plenos de juventude; iluminados pelas luzes da cidade.

Foto: Léo Borba

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