Calor extremo mata milhares na Europa, provoca incêndios, deforma trilhos, derrete estradas e transforma casas em estufa.
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Por: Rô Wölfl/Alemanha
A Europa enfrenta um dos verões mais severos dos últimos anos. Ondas de calor sucessivas levaram os termômetros a ultrapassar os 40°C em diversos países, provocando milhares de mortes, aumento dos afogamentos, grandes incêndios florestais e uma corrida pela compra de aparelhos de ar-condicionado.
Na Alemanha, o Instituto Robert Koch (RKI) estima que cerca de 5.120 pessoas morreram em consequência da onda de calor registrada no fim de junho, principalmente idosos e pessoas com doenças crônicas.
Considerando os registros de países como Alemanha, França, Espanha, Itália, Portugal e Bélgica, especialistas estimam que mais de 10 mil mortes estejam relacionadas às altas temperaturas neste verão europeu, embora os levantamentos ainda estejam em atualização.
As altas temperaturas também levaram milhões de pessoas a buscar praias, rios e lagos para aliviar o calor. O movimento aumentou o número de acidentes aquáticos.
Na Alemanha, durante um dos fins de semana mais quentes do ano, ao menos sete pessoas morreram afogadas. Outros países também registraram aumento das ocorrências, levando autoridades a reforçar os alertas sobre os riscos de nadar em rios de correnteza forte e locais sem equipes de salvamento.
Ao mesmo tempo, o calor intenso, a baixa umidade do ar e os ventos fortes criaram condições favoráveis para incêndios florestais. Espanha, Portugal, França, Grécia, Itália e Turquia enfrentam grandes focos de queimadas. Somente na Espanha, dezenas de milhares de hectares de vegetação já foram destruídos neste verão, enquanto milhares de moradores precisaram deixar suas casas por causa do avanço do fogo. O balanço da área total queimada na Europa ainda está sendo consolidado pelos órgãos ambientais.
Os serviços meteorológicos alertam que o calor deve persistir nas próximas semanas. Novas ondas de calor são esperadas durante o restante do verão, mantendo temperaturas acima da média histórica em boa parte do continente.
Corrida pelo ar-condicionado
Com o calor prolongado, a procura por aparelhos de ar-condicionado disparou em praticamente toda a Europa. Em muitas cidades, os equipamentos portáteis desapareceram rapidamente das prateleiras, enquanto empresas especializadas em instalação registram filas de espera.
Os preços variam conforme o modelo e a capacidade do equipamento. Um aparelho portátil custa entre 250 e 400 euros. Um sistema split para um ambiente varia entre 800 e 1.500 euros, incluindo a instalação. Para climatizar uma residência com dois ou três ambientes, o investimento fica entre 3 mil e 6 mil euros. Já sistemas multisplit ou centrais para casas maiores, prédios comerciais e escritórios podem ultrapassar 20 mil euros.
Além do investimento inicial, o consumidor também sente o impacto na conta de energia. Um único aparelho funcionando entre seis e oito horas por dia pode acrescentar de 30 a 100 euros por mês à conta de luz. Em imóveis com quatro aparelhos ligados diariamente durante os períodos mais quentes, o custo extra pode superar 200 euros mensais.
Alemanha ainda tem poucas residências climatizadas e casas se tornam verdadeiras estufas com as altas temperaturas
Apesar das temperaturas cada vez mais elevadas, a Alemanha continua sendo um dos países europeus com menor presença de ar-condicionado nas residências. Estima-se que apenas cerca de 5% das casas tenham pelo menos um aparelho. Nos edifícios comerciais, hotéis, hospitais e escritórios modernos esse percentual é maior, mas ainda está muito abaixo do observado em países onde o calor intenso faz parte da rotina há décadas.
O motivo é histórico. Durante muitos anos, as construções alemãs foram projetadas para enfrentar invernos rigorosos, e não verões escaldantes.
Casas se transformam em verdadeiras estufas
Grande parte das edificações na Europa possui paredes grossas de concreto, pedra ou tijolos, isolamento térmico reforçado e janelas com alta vedação. Essas características ajudam a conservar o calor durante o inverno, reduzindo o consumo de energia com aquecimento.
Entretanto, durante ondas de calor prolongadas, esse mesmo sistema impede que o calor acumulado seja dissipado. As paredes, os telhados e as lajes absorvem a radiação solar ao longo do dia e liberam lentamente esse calor durante a noite.
Quando as temperaturas noturnas permanecem elevadas, apartamentos, principalmente os localizados nos últimos andares, tornam-se verdadeiras estufas, dificultando o descanso e aumentando os riscos à saúde.
Os efeitos das temperaturas extremas também atingem a infraestrutura. Em vários países, os trilhos ferroviários sofreram dilatação por causa do calor, obrigando empresas a reduzir a velocidade dos trens para evitar acidentes. Em alguns trechos, foram necessárias inspeções e interrupções temporárias da circulação.
As rodovias também sentiram os efeitos das altas temperaturas. Em regiões da Alemanha, França, Itália e Reino Unido, o asfalto apresentou deformações, rachaduras e ondulações provocadas pelo calor intenso.
Em alguns pontos, o pavimento chegou a amolecer, dificultando o tráfego e aumentando o risco de acidentes.
Os especialistas alertam que esse cenário tende a se repetir com maior frequência nas próximas décadas. Além de ampliar a capacidade de resposta dos sistemas de saúde, os países europeus terão de adaptar cidades, edifícios e a infraestrutura de transporte para enfrentar um clima cada vez mais quente e eventos extremos cada vez mais frequentes.




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