"Pardais na areia", nova crônica do jornalista Léo Borba




“Nada tenho, além de mim. Apenas esta lona que esconde do mundo o meu sono”.


Este era o recado, em letras disformes, na tabuleta dependurada na porta da pequena barraca, armada na pracinha do bairro. Da rua lateral surgem dois carros. Fazem uma pequena parada antes de seguir em direção à marginal da rodovia. É de lá que vêm os ruídos das primeiras horas do dia.


Recém-desperto, ele fica em pé, sob a copa da árvore. Estica os braços, alonga corpo e saúda a manhã com um bocejo longo. Pega na mochila uma sacola plástica e junta a garrafa com água ao lado da barraca. Tira um elástico do pulso e prende os cabelos brancos e longos.


Na área de uma das casas da rua de cima, um homem observa o movimento. Vê a mulher levar o cachorrinho ao gramado da praça. Com uma xícara de café na mão, retribui o aceno do casal que passa em frente ao portão. Coloca os óculos e fixa a visão na ponta da praça. Vê um raio de sol esgueirar-se por entre os galhos da árvore e refletir a lona da barraca.


Sentado na beira da calçada, ele observa a água do bochecho escorrer pelo meio-fio. Na boca, o gosto do creme dental. Levanta a cabeça e observa ao redor. As pessoas seguem pela manhã; atravessam a rua ao se aproximar dele.

Levam a angústia escondida pela máscara.


Passou a mão a mão na barba de cinco dias. Pegou a máscara que estava ao lado do exame de PCR-RT. Negativo. Fechou a mochila, desmontou a barraca e observou o playground.


Colocou a mochila nas costas, a barra no ombro e deixou a praça. “Almoço de hoje”, anunciava o quadro de giz na calçada. Na porta, comprou uma “quentinha” e seguiu.


Alguns quarteirões depois, entrou no condomínio.

-Então, senhor, como foi a aventura?- Perguntou o porteiro. -Depois eu te conto – Respondeu ele, entrando no elevador de serviço. Apertou o botão do último andar.


Dentro do apartamento, livrou-se da mochila, da barraca e da máscara. Descalçou os tênis e levou tudo pra área de serviço. Lá, também ficaram as roupas. Um jeans surrado, rasgado. Uma camisa polo em iguais condições.

Embaixo do chuveiro, relembrou os dois dias de fuga. “Onze meses sem sair de casa!”

Deu folga pra empregada e saiu no silêncio da madrugada, disposto a encontrar a vida das ruas.


Na sacada, ao lado da piscina, abriu o notebook. Nos sites, as manchetes sobre a vacina contra a Covid, misturavam-se com as eleições dos parlamentos.

Decidiu não ler.

Requentou a “quentinha” e almoçou, com a lembrança do pardal que saltitava na areia do playground, por entre a solidão dos brinquedos sem crianças.

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