"Paletó no Chão", nova crônica do jornalista Léo Borba



Enormes blocos de pedra formavam o muro construído de um lado a outros da estrada. Ficou olhando para a barreira que o impedia de entrar na cidade.

Ouviu o ronco de um pequeno motor bem rente a janela do carro. O Drone se afastou alguns metros e pairou. A lente da pequena câmera parecia observá-lo. Desembarcou do carro e foi em direção ao pequeno aparelho que, por sua vez, também se movimentou. Devagar, voou para o alto da pequena colina, ao lado da estrada.

Ele seguiu atrás. Dez passos adiante jogou o paletó no chão e afrouxou o nó da gravata. Com a respiração ofegante, continuou a subida.

Viu o pequeno helicóptero pousar no alto da colina, como se esperasse. -Cheguei! – Disse ele. Mas a voz não saiu da boca. Sentiu a brisa refrescar o rosto molhado de suor.

As duas hélices voltaram a girar. Sentado na relva, viu o Drone se afastar em direção à cidade. Ao lado de onde decolara, um notebook ligado mostrava as imagens da pequena câmera. Num movimento circular, enquadrou o centro da cidade. O conglomerado de prédios, a igreja matriz e a praça em frente... As imagens, lentamente, desfilavam pela tela. Invocavam lembranças. Os tempos de infância, a escola, o clube dos primeiros bailes...

- Mas onde está todo mundo? – Perguntou, olhando para a grande avenida sem movimento.

Desviou os olhos para a cidade lá embaixo. Nada se movia. Viu o Drone se aproximar do solo. Na tela, calçadas vazias. O comércio de portas abertas sem ninguém para comprar; nem para vender. Sentiu o silêncio das escolas.

“Uma cidade com, sei lá, mais de 260 mil habitantes...”, pensou assustado, ao ver aquele deserto urbano. “Onde foram?” Quis saber. Levantou a cabeça em busca de resposta e tudo o que viu foram algumas nuvens. Tudo parecia rodar diante dele.

Olhou a tela e viu o próprio rosto. O Drone vinha ao seu encontro. Levantou-se e começou a correr colina a baixo. Sentiu falta de ar, tropeçou no paletó que deixara no caminho. O corpo rolou pela relva. Tentou levantar; não conseguiu. Girava sobre si mesmo. O ruído do Drone estava mais perto. Os pulmões pediam ar... “A cidade estava deserta”!

Junto ao carro, o corpo parou. Abriu os olhos e viu o Drone a alguns metros acima. Tentou levantar, mas só conseguiu ficar sentado. Conseguiu inalar um pouco da brisa que soprava. Não conseguia ficar em pé. –Pra onde foi todo mundo – perguntou, olhando para aquela pequena máquina que descia em direção a ele. Recostado no pneu do carro, esperou que ele chegasse. Por entre as nuvens, o sol apareceu e ele fechou os olhos. Ao abrir, viu o Drone subir e pousar no alto da colina, deixando no ar um rastro de palavras que não conseguia ler.

Então acordou. –O que estava assistindo?- perguntou a esposa, já no quarto. -Aquele programa “O Brasil Visto de Cima.”- Respondeu ao levantar do sofá. Então, foi para o quarto, sem juntar o paletó que estava no chão.


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