Crônica: Entre Luzes e Buzinas

Por Léo Borba, jornalista


Entrou no carro e saiu pela tarde ensolarada, na companhia da música que tocava no rádio. Sem pressa, observou a calmaria do mar e a areia deserta. Estacionou o carro e, resistindo a vontade de desembarcar, baixou o vidro para sentir o ar de outono. Ouviu o som estridente das gaivotas na beira d’água e ficou a observar o oceano; a imaginar o que poderia haver além do horizonte. Pensou ter visto um barco ao longe, era apenas uma nuvem na linha do mar.


O vulto branco que passou pelo carro lhe desviou a atenção. Era um cachorro que correu em direção à areia molhada. As gaivotas voaram, deixando o cão se divertir na água.

–Uma boa ideia! – Disse pra si mesmo, com a intenção de sair do carro.

-Fique em casa! Proteja a si e os outros.

–Avisava a comunicadora do programa de rádio. Uma pausa nas músicas para atualizar as notícias sobre a pandemia.

Decidiu não descer. Tinha, depois de vários dias, interrompido o isolamento. Sentia a necessidade de arejar a cabeça. Mesmo por pouco tempo, queria se isolar das notícias, das mesmas e desencontradas notícias.

Tinha chegado até ali, depois de estudar minuciosamente o itinerário. Uma rota com pouco ou nenhum movimento. Colocou a máscara, lambuzou as mãos com álcool em gel. Com a mão enluvada abriu a porta de acesso à garagem e, mesmo com a sensação de não estar fazendo a coisa certa, saiu para o que chamou de breve passeio.

“Não vou conversar com ninguém”, pensou ele com o carro na avenida que margeia o mar. Podia não ser a melhor, mas era uma boa justificativa! A música voltou a tocar no rádio. Mas não evitou que voltasse a pensar no vírus. Decidiu ir embora. Retornou por onde veio e, quando se deu conta, já havia deixado a ilha.

A tarde era quase finda quando parou o carro numa das praias do continente. Desligou o rádio. De dentro do carro, admirou o encontro da luz com a água mansa da baía. Sentiu um pouco de inveja do pescador. Tingido pelo manto acobreado do ocaso, alheio e solitário, jogava a tarrafa. Quando o sol se pôs, decidiu voltar pra casa. Dirigia devagar. No rosto, o ar da noite lhe dava a sensação de voar. Pelas ruas e avenidas, se deixou levar pela sensação de liberdade que há dias não sentia e que, ao se aproximar da entrada da garagem, se perdia entre luzes e buzinas.


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